terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Caminho da Fé: Da dura realidade ao sufoco!. 5ª edição - Por Paulo Ribeiro - Recife (3º DIA )


3º DIA (05/12)– SERRA DA FARTURA (SÃO ROQUE) – ÁGUAS DA PRATA – 29,95 Km
Depois de mais uma boa noite de sono, na verdade eu acabei dormindo com a luz acesa do quarto de tão relaxado que estava, e aí acordei também meio perdido no horário. Diferentemente da região nordeste, corroborado pela ausência do horário de verão, lá já temos sol raiando por volta das 04h30m e se pondo por volta das 17h45minh. Na região da Mantiqueira, eu estava acordado às 06h e nada de sol. Por isso que se costuma sair por volta das 08h, coisa que eu achava muito tarde.

Organizada as tralhas, e depois de um café razoável, pus-me na estrada, não sem antes me despedir de todos e agradecer profundamente pela excelente acolhida.

Minha primeira trapalhada do dia foi logo na descida da pousada foi ter deixado cair uma caramanhola (squeeze) que estava no bolso de um dos alforjes. Deixei a bike próxima da porteira e retornei para pegar.

Mais à frente, já percorrido algumas boas subidas e descidas para aquecer os músculos, percebi que a mesma caramanhola havia caído novamente. Pensei comigo, “Calma faz parte seu imbecil!”. Retornei mais uma vez só que de quebra acabei me confundindo no caminho, por sorte encontrei um fusca com dois senhores que estavam entrando em uma propriedade, perguntei qual o caminho da Pousada da D. Cidinha, apesar de falarmos em português se tornou meio complicado porque eles para me darem a resposta eles queriam saber ora para onde eu estava indo ora de onde eu estava vindo, será que para fazer os cálculos de física mecânica?

Mas antes de completar minha irritação diante de complicada resposta para uma pergunta tão simples, estabeleceu-se a referência que eu deveria atravessar um mata-burro, será que essa designação de passagem teria algo haver comigo?

Enfim, após passar o mata-burro, sem nenhum arranhão, decidi deixar a bike numa parte alta do caminho e seguir a pé mesmo para não ter que empurrá-la na volta. Já começava a questionar se valia a pena tamanho esforço, mas nessa jornada água realmente é um bem bastante precioso chegando a conclusão, “se você quer agradar um peregrino, ofereça-o água”. Finalmente avistei a bendita caramanhola, ainda na propriedade da D. Cidinha, havia caído um pouco depois do lugar onde eu a havia resgatado, ou seja, numa descida próxima a porteira.

Retornei alternando caminhando e trotando, já pensando, “Será que a bike vai estar lá me esperando, será que algum “experto” se apossou dela covardemente?”, nessa altura do campeonato seria bem aceitável. Mas depois de alguns metros eu a avistei feliz em me ver e eu mais ainda. Desta vez eu amarrei “com gosto” a caramanhola com as cordas que ajustam a boca do alforje.

Daí para frente posso dizer que foi um dos dias mais lindos, com muitas fotos, uma redenção ao dia anterior. Parecia que a Natureza queria fazer as pazes comigo pedindo desculpas pela judiação.

As imagens acima já dizem tudo, ou quase tudo de prazeroso que foi esse dia, praticamente não sentia a ferida do joelho ardendo quando por algum instante parava de pedalar ou inchando diante do repouso não respeitado. Até corsa, aquela espécie de veado brasileiro, o original, por favor, eu vi, e eram dois! Não bati foto por pura preguiça ou cansaço, como era a minha primeira experiência nesse tipo de jornada não tinha a noção de que não há importância no tempo perdido em registrar um momento deste. Dois veadinhos saltitantes no mato, que meigo não!?

Mas deixando a veadagem para lá, não me recordo de nenhuma das subidas e descidas que superei, alguma que já não fizessem parte “contratual” do Caminho. À exceção de uma. Essa merece um comentário à parte. Quando já me aproximava de Águas da Prata, quando exatamente eu via um trecho de asfalto a minha frente, meu oásis naquele deserto de subidas e descidas, vejo uma placa à direita, estrategicamente posta a alguns metros do asfalto.

Pensei, “bobagem, deve ser apenas mais um caminho de terra até a cidade”. Ledo engano, era na verdade uma descida TE-RRÍ-VEL onde acredito só passava veículos de empresas dessas prestadoras de serviços tais como água e energia. Foi sem noção tamanha a inclinação acompanhada devidamente por cascalhos e pedras. Acredito que até para caminhantes deveria ser judiação aquilo. Eu já com o joelho a meio-pau se tornava mais difícil ainda, descer montado na bike era morte na certa. Para os praticantes de Down Hill deve de ser um Hopi-Hari. Nas descidas era quando o joelho se fazia presente doendo, considerando ainda que eu tinha que segurar a bike para
ela não descer primeiro que eu.

Felizmente o solo estava seco, porém com o cascalho, parecia que eu estava pisando em bolinhas de vidro. Às vezes pensava, “Será que é por aqui mesmo?”, mas mais à frente lá estava a setinha amarela, “É por aqui mesmo chão!”. Lamentei não ter pegado o asfalto, por vezes, pensei se valeria a pena voltar pelo asfalto mas teria de subir o que desci então...continuei descendo pensando que daquele jeito “todos os santos ajudam”.