quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Caminho da Fé: Da paz interior à sabedoria de saber parar!. 7ª edição - Por Paulo Ribeiro - Recife (5º e último DIA )

5º DIA (07/12)– SERRA DOS LIMA – OURO FINO 27,29 Km

Acordei com o dia chuvoso, tomei meu café bem cedo como havia combinado com D. Natalina, e muito solicita cumpriu com a parte dela. Como havia dito antes e sem sol, ainda estava escuro às 06h30minh. Impensável isto por estas bandas.

Organizei as coisas resignadamente, ainda coloquei um pouco de gelo no joelho, cobri os alforjes com as capas próprias e a pochete e o alforje de guidão improvisei com sacos plásticos. Despedi-me de D. Natalina e seu esposo e segui viagem objetivando pernoitar em Borda da Mata/MG.

Aquele dia realmente não era para pedalar, no horizonte só se via o movimento da chuva caindo de um céu escuro carregado de nuvens pesadas. Que desalento, o solo escorregadio impregnado de barro que grudava nos pneus. Um cenário definitivamente que começava a derrotar meu compromisso em vencer as adversidades naturais do Caminho e as intempéries do tempo, estas, que eu não contava serem tão duras.

Em dado momento comecei a olhar em volta do caminho e via as casas de sitiantes e pensei, “Se começar a realmente ficar inviável pedalar hoje, talvez eu venha a ter que pedir asilo enquanto a chuva não diminui”, lembrei de alguns trechos do livro “No guidão da Liberdade” do Antonio Olinto, em que ele passou por situações um pouco semelhantes na Europa, ainda bem eu não tinha também o frio ao meu desfavor. Em resumo, só não “pedi para sair” porque não tinha a quem fazê-lo.

Mais à frente, estacionei embaixo de um galpão pertencente a uma igreja, e lá coloquei uma abraçadeira para fixar o pára-lama dianteiro que não resistia às pancadas da roda nas valas criadas no caminho em razão dos veios d’água criados nas descidas dos morros. Surgiu um tratorzinho que estacionou próximo a mim, analisei bem se havia a possibilidade de ele me “resgatar” até a cidade próxima, no caso Barra, mas não tinha como a magrela seguir em “segurança”. Terminado o pequeno reparo segui em frente até chegar à Pousada do Tio João, local de registrar mais um carimbo na minha credencial, fui recebido por uma senhora muito prestativa, uma típica vovó gorduchinha de cabelos brancos que lembrou a nossa inesquecível D. Benta no nosso grandioso Monteiro Lobato, que me ajudou a procurar uma mangueira para dar um banho na magrela e tirar o barro que cobria e emperrava tudo que era necessário mover na magrela. Depois de bem uns quinze minutos em busca de uma mangueira na pousada que ela não residia, mas disse ser de sua própria filha acabamos nos dirigindo a casa em frente e lá um casal de anciões nos forneceu uma mangueira e puder “revitalizar” a magrela.

Depois da credencial devidamente carimbada, caramanhola reabastecida, e bike lavada, segui viagem até um ponto alertado pelos moradores com os quais conversei naquele dia. Eles chamam de brejo, eu havia sido alertado que há alguns dias nem o ônibus local que faz o transporte das crianças para a escola tinha condições de ali passar, mas recentemente, mas naquele fim de semana um trator da prefeitura havia no local e diminuído o barreiro. Eu poderia chamar ao invés de brejo, de “minha segunda queda psicológica”, após ter superado aquele primeiro momento de “tropa de elite”, agora enfrentaria um trecho plano, mas extremamente escorregadio, mas muito escorregadio mesmo. Eu usava um tênis Timberland que dispensa comentários acerca de sua qualidade e durabilidade. Depois de alguns poucos metros os tênis apresentavam um círculo de barro em volta, parecia que eu havia pisado numa forma de fazer pão ou uma massa qualquer na cor marrom avermelhada, a bike apresentava uma crosta em volta dos pneus que os impediam de fazerem seu movimento natural. Resultado, tive que retirar o pára-lama dianteiro que havia consertado pouco antes para amenizar a dificuldade em fazer a bike seguir caminho. A bike se tornou meu cajado.

Mais à frente, em uma descida também bastante escorregadia, com a bike praticamente travada do barro prendia as rodas ao garfo e ao bagageiro, surgiu uma camionete daqueles de transporte de galões de leite, um senhor vinha ao volante e não me fiz de rogado, pedi carona até a cidade mais próxima, no caso Crisólia, no que fui gentilmente atendido, botei a bike na carga juntamente com os alforjes e entrei na “boleia”. Seguimos ainda pela estrada de barro por um pequeno trecho até chegar ao asfalto. Agradeci da parte mais profunda do meu coração por aquela carona curta mas extremamente providencial, aliviei a carga minha bike com os alforjes e pedi, por mais uma vez, a ajuda a uma senhora que observava aquele ET que pousou em sua rua, provavelmente pousar não seria o termo mas emergiu do solo tamanha a quantidade de barro que carregava consigo e numa espécie de máquina que lembrava uma bicicleta.

Depois de um banho de mangueira tanto na magrela como em mim mesmo, segui para o restaurante da Zeti, onde fui recebido pela mesma, e lá obtive mais um carimbo na minha credencial, registrei minha passagem por lá, em um livro próprio, e almocei tomando, salvo engano, de dois a três copos de suco de laranja. Depois de uma boa conversa sobre minhas agruras no trajeto até Crisólia, entre outros assuntos importantes, como o descenso do glorioso Sport Club do Recife com outros frequentadores do restaurante, segui viagem desta feita pelo asfalto mesmo até Ouro Fino/MG. Já estava me resignando pela inviabilidade de terminar o Caminho naquelas condições de tempo e físicas.

Ainda percorri cerca de seis quilômetros até Ouro Fino, e na entrada avistei a enorme imagem do Menino da Porteira, e nem acenei para ele e me pus a adentrar na cidade que é razoavelmente grande. Passei na frente da Casa do Peregrino, pousada destinada aos peregrinos do Caminho que posteriormente em seu site vi que possui uma excelente estrutura, mas obviamente naquele momento, para mim, estaria fechada com cadeado e sem aviso onde procurar alguém que pudesse abri-la ou dar informações se estava em funcionamento. Acabei por já encontrar a saída da cidade, mas por mim eu havia parado por aquele dia, a chuva não parava um instante e não havia a menor perspectiva de seu término. Acabei encontrando o Hotel Caiçara, um antigo hotel com mobiliário também bem original mas conservado, sendo recebido pela minha “terceira queda psicológica e final”, acredito que se tratava de um dos proprietários do hotel, que me recebeu à altura do tempo que fazia lá fora, me senti a b.... do cavalo do bandido, mas não me encontrava em condições nem físicas nem psicológicas para buscar nova acomodação, eu simplesmente queria parar. Deixei a magrela no estacionamento interno do hotel, coberto por um telhado de chapas de alumínio e segui para meu minúsculo quarto com banheiro privativo.

Desaguei as tralhas tomadas pelo barro embaixo da pia do banheiro, tomei meu banho, chupei minha última laranja de Vargem Grande, comecei minha sessão de gelo no joelho, e comecei a me convencer que o melhor que eu tinha a fazer era parar. Não desistir, mas parar e quando falo em parar e não mais seguir em frente naquelas condições mas em uma nova oportunidade em que a possibilidade de frente fria tão severa não se fizesse tão presente, e me recuperar do joelho machucado. Caminhei pela cidade, conheci a gruta do supermercado peg-pag, mas não posso dizer que mudou muito meu estado de espírito, às vezes temos falsas impressões ou expectativas positivas que não se correspondem acerca das pessoas.

Depois em busca de uma lan house, confirmei que a medida mais sensata era essa ao ver que no Clima Tempo a perspectiva seria ainda de mais três dias de chuvas naquela região, então as estradas do Caminho estariam ainda com muito barro solto e escorregadio propícios a quedas de barreiras, a tombos e escorregões o que poderia realmente trazer sérios problemas ao joelho ferido e inchado, além de poder encontrar algum trecho submerso por algum rio. Refleti que não sou nenhum atleta que esteja tentando superar seu limite nem precisava provar nada a ninguém ou ainda completar aquele percurso significasse prover a minha família de algum tipo de segurança. Alterei a data do meu retorno no site da companhia aérea, tomando mais um prejuízo pela alteração da data mas como se diz por aqui, “o que é um p.. para quem já está todo c.....”, comprei minha passagem na rodoviária Ouro Fino – Campinas, saindo às 09h50min, chegando por volta das 14h00.

À noite jantei numa pizzaria em que o proprietário é o mesmo da Casa do Peregrino e o alertei que era de bom tom que se deixasse algum aviso de como entrar em contato com alguém caso a Casa estivesse fechada. Ele gostou da idéia e trocamos informações a respeito de “minha estória” até a chegada de seu estabelecimento, renovando minhas impressões de alguns trechos mal cuidados do Caminho e da péssima recepção no Hotel Caiçara.

Comprei no comércio um novo par de sapatos, o mais simplório possível, deixaria meu “Timberland” encharcado e impregnado de barro de lembrança ao pessoal do Caiçara.

No hotel, após o jantar, lavei as tralhas no Box do banheiro deixando boas marcas de recordação a simpática equipe de proprietários. Descansei assistindo a TV de imagem comprometida e sem controle remoto e adormeci.

Ao acordar, tomei café da manhã até que razoável, por que não!?? Assistindo ao noticiário sobre as fortes chuvas que caiam na Capital São Paulo. Paguei minha conta de R$30,00, montei minhas tralhas e fui pedalando até a bicicletaria da cidade, onde lá me despedi e desmontei a fiel e castigada companheira.

Peguei um táxi até a rodoviária, onde o taxista me ajudou a levar a magrela até o setor de embarque e aguardei pacientemente o momento da minha partida. No caminho até Campinas muita chuva o que de certa forma me confortava da minha acertada e difícil decisão.

Em Campinas, almocei na praça da alimentação da própria rodoviária, deixei a magrela no guarda-volumes e peguei um táxi e me instalei numa pousada nas proximidades, pousada esta que acredito servir também de “abatedouro” das mocinhas disponíveis do local, mas como a proposta era só descansar até a hora do vôo, 23h27minh, estava muito bom, tomei um banho, descansei, comecei a ler um livro que comprei na rodoviária e que falava sobre a vida do místico “Padre Cícero”.

Novo táxi até a rodoviária, resgatei a magrela no guarda-volumes, e peguei um transfer até o aeroporto de Viracopos, trajeto bem servido da constante chuva.

No aeroporto, nova absurda taxa de cem reais para transportar a bike desmontada e embalada, fato que me levará a uma ação no Juizado Especial Cível haja vista parecer formulada pela Gerência Regional da ANAC do Rio Grande do Sul
(http://www.gmancuso.com.br/tracks/anac/cobranca_indevida.pdf).
Vôo de retorno tranqüilo, táxi que me levou até minha residência avançou um sinal na madrugada o que ocasionou um bom susto, mas enfim por que não uma última adrenalina nos momentos finais!?

Por fim, garanto que foi uma das experiências mais marcantes e gratificantes da minha vida, por estar desacompanhado de alguém, mas, com certeza de algo que me protegeu nos momentos críticos da jornada, tive oportunidade de realmente conversar comigo mesmo, de cantar, de me confortar, de me dar coragem, de rir das minhas trapalhadas e agruras, enfim, valeu tanto a pena que estarei retornando em outubro de 2010, saindo de Recife no dia 02 e chegando a Aparecida no seu dia 12.

Espero, de esta feita conseguir arregimentar alguém daqui e quem sabe me fazer acompanhar de uma pequena equipe pernambucana, quiçá ter a primazia de ser a primeira dessas plagas. Quanto às fotografias do último dia, não tive condições de fazer os registros do intenso aguaceiro que caía e que fatalmente iria comprometer o bom funcionamento da câmera. Agradeço por fim, a paciência, disponibilidade dessa pessoa admirável, que ainda não conheço pessoalmente, mas que já é uma das pessoas que guardo em meu coração pelo exemplo de vida que através do esporte faz sua mensagem de altivez, solidariedade, propagar nesse plano em que vivemos. Valeu, Professor!!