sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Henrique Avancini conta sobre sua participação no Campeonato Mundial na África do Sul

Henrique Avancini conta sobre sua participação no Campeonato Mundial na África do Sul. O atleta falou sobre a queda na quarta volta e como foi correr entre os 5 primeiros da prova.
Cheguei para o Campeonato Mundial 2013 na África do Sul, bem fisicamente e motivado. O Campeonato Mundial é a principal prova da temporada e o título é disputado em prova única. Lembrando que Copa do Mundo e Campeonato Mundial são provas diferentes. A Copa do Mundo é disputada em várias etapas e os atletas representam suas equipes UCI ou suas nações. No mundial todos representam suas respectivas  nações.




Chegamos com boa antecedência e tive tempo para descansar antes do circuito abrir para treinos. Como a equipe nacional viajou sem mecânico, na noite de segunda-feira estava arrumando minha bike quando esmaguei meu dedo indicador direito. A unha ficou inteiramente roxa e o dedo ficou muito inchado. Foi só uma unha, mas o suficiente para não dormir sentindo muita dor. Na terça-feira o dedo ainda doía muito e tentei sair para treinar. Não conseguia frear nem fechar a mão no guidão, então fui ao posto médico para tentar fazer alguma coisa. O médico decidiu fazer uma drenagem esquentando bem uma seringa e fazendo vários furos na unha e então espremer o dedo até sair o sangue e aliviar a pressão. Foi meio doloroso, mas no fim do dia estava conseguindo frear e isso é o que importava.


Treinei no circuito na quarta, quinta e sexta-feira. Geralmente não ando tanto no circuito porque acaba sendo desgastante, mas queria estar seguro de executar as seções técnicas com precisão.


No sábado, sai para fazer o tradicional treino leve na parte da manhã, e a percepção era boa. Voltei para o hotel comi, relaxei, me preparei para a prova e fui para o circuito. 


No aquecimento eu me sentia bem. Fui para o alinhamento, largando como 21° colocado do ranking mundial, o que me coloca na terceira fila do grid. Não é a posição dos sonhos, mas já ajuda bastante e se o atleta tiver uma largada potente e der um pouco de sorte, é possível se posicionar mais a frente no começo da prova. Larguei muito bem e consegui ganhar posições. No final da reta de largada uma pequena brecha se abriu e consegui pular para frente do pelotão, entrando na primeira subida longa na quinta colocação. 

Consegui me manter no grupo sem ultrapassar meu limite. Acabei ficando no grupo líder com outros cinco atletas. No fim da primeira volta o suíço Nino Schurter liderava, alguns segundos na frente e eu fechei a volta na quarta colocação na roda do espanhol Hermida e do suíço Giger. Logo atrás vinha um grande grupo perseguidor. Na segunda volta procurei respirar e me recuperar para o restante da prova que teve um total de sete voltas. Acabei fechando a segunda volta na décima quarta colocação, mas me recuperei e estava pronto para me manter bem na prova. Na terceira volta passei na décima primeira colocação e estava na briga pelo top 10. Na quarta volta me mantive entre a décima e a décima quinta colocação.
 Pela minha sensação na prova, acredito que me manter nos top 15 até o fim da prova seria um resultado muito provável. Mas no final da quarta volta acabei sofrendo uma queda forte e caindo de cabeça em uma pedra. Sofrer uma queda em uma pista deste nível é normal e faz parte do contexto, mas o problema é que não foi apenas um tombo simples e acabei ficando bem tonto. Na hora achei que tinha levantado muito rápido, colocado a corrente no lugar e seguido na prova. Achei que tinha perdido duas posições e uns 15 segundos. Na verdade foram treze posições perdidas e meu tempo de volta foi 2 minutos mais alto que as voltas anteriores. Quando voltei para a prova me sentia tonto e minha cabeça doía muito. Se eu tentasse reagir e voltar a impor meu ritmo, a pressão na cabeça ficava grande demais e eu perdia os reflexos com a tontura e não conseguia acertar as curvas. Nas últimas três voltas andei em ritmo de treino.
 Não forçava, pois não conseguia. Apenas insisti em terminar a prova para garantir uns pontinhos no ranking mundial. Na última volta eu não estava aguentando a dor e desci empurrando em alguns trechos pois não estava enxergando bem. 

Cruzei a linha de chegada na quadragésima posição. Quando terminei a prova a dor na cabeça aumentou e fiquei mais tonto. Sei que fui socorrido e quando a pressão sanguínea abaixou a tonteira diminuiu, mas a cabeça ainda doía muito . Fui clinicado e encaminhado ao hospital, mas assinei um termo de responsabilidade para liberação já que estava frio e o atendimento seria moderado, e eu não estava bem. Fui medicado e fui para o hotel tomar um banho e me agasalhar. Estava um pouco tonto e com uma dor de cabeça muito forte. Tentei comer um pouco e então fui surpreendido pelo médico da equipe suíça.
 Ele perguntou como eu estava e se eu queria que ele me analisasse. Achei um baita gesto de humanidade por parte do Doutor German Clenin. Recebi um tratamento de primeira, com uma análise feita por um médico especializado que cuida dos melhores do mundo na modalidade. Assim como o médico da prova, ele suspeita de uma concussão cerebral leve. Fui instruído pelo médico a não correr no mundial de eliminator e repousar até fazer exames mais aprofundados. 

No domingo pela manhã conversei com o médico novamente e como os sintomas persistem, mas bem mais leves, os exames mais específicos serão realizados no Brasil.
Deixo este mundial com um pouco triste, mas acho que mais uma vez mostrei que posso andar com os grandes do mundo mesmo na principal competição da temporada. Agradeço aos brazucas que torceram por mim na pista e também no Brasil. Pra vocês eu prometo que, posso ficar até meio tonto, mas se Deus permitir vou sempre levantar e seguir em frente. Trabalho pelo meu esporte e espero trazer alegria e respeito para o MTB brasileiro.